O primeiro disco a gente nunca esquece
Ele está comigo há 20 anos. Perdido no meio de outros tantos LPs e ausente há bastante tempo do meu relativamente ativo toca-discos. Mas hoje, por alguma razão alheia à minha compreensão, resolvi dar-lhe uma chance. Enquanto a agulha deslizava pelos sulcos do vinil, lembranças do ginásio e de toda uma época da minha vida saíram do baú das memórias e começaram a tomar forma.
Eu já nem lembrava, mas meu primeiro disco foi adquirido com trocados de viagens de ônibus, o famoso 5131-Praça da Sé, que me levava até o colégio. Já havia algum tempo que eu gostava de rock pesado. Era refém dos poucos programas de video-clipes, o mais saudoso deles o Som Pop, da TV Cultura, que, vez ou outra, tiravam do arquivo filminhos de bandas de hard rock e heavy metal. Nada mais fascinante para um adolescente de 13 anos, cheio de espinhas, e que adorava o som de guitarras elétricas. Mas, numa bela noite de domingo, foi o eterno programa Fantástico que fez a supresa. Anunciaram para depois do intervalo, nada menos que um "musical" do ex-vocalista do Black Sabbath. À época, o departamento de jornalismo da Vênus Platinada ainda não tinha aderido ao termo video-clipe, mas para mim não fazia diferença: a simples menção ao nome daquela banda sagrada, me fez levantar do sofá e me sentar a menos de dois metros da TV.
Não faço idéia de quem era o locutor global, mas ele anunciou "The Last in Line" como a idéia do cantor Ronnie James Dio sobre o apocalipse e terminou o texto com uma tradução livre do título: "O Fim da Linha". O estrago estava feito. Imagens de um elevador que cai até uma espécie de inferno onde há todo tipo de gente atormentada, a trilha musical recheada de guitarras pesadas e toda aquela idéia de fim dos tempos me fascinaram. Lembre-se que era 1984 e existia ali um componente de rebeldia em relação à ordem das coisas. Para as FMs brasileiras, a idéia de rock ainda estava vinculada a coisas pavorosas como o grupo Radio Taxi e da TV, bem, dessa era melhor não esperar muita coisa, salvo o oásis do Som Pop.
Passou-se quase um ano da veiculação de "The Last in Line" no Fantástico até eu perceber que poderia, sim, comprar o disco e reproduzir toda a emoção que foi ouvir aquela canção numa noite de domingo. E assim fui acumulando troco da cantina do colégio com algumas moedas que sobravam das viagens no velho 5131, que eu normalmente pagava com passe escolar, mas que, na falta deles, usava dinheiro de verdade. As economias foram fazendo um volume discreto na carteira azul-marinho da Ocean Pacific e o que faltava para adquirir o LP, provavelmente foi conquistado graças à eterna generosidade maternal.
Com o dinheirinho contado, lá fui eu, a bordo do 5131, dessa vez até o ponto final, na Praça da Sé, atrás de meu primeiro disco. A loja escolhida tinha que ser a filial da rua 7 de Abril da outrora importante rede Museu do Disco. Garimpei em cada casulo de vinil até deparar com aquela capa com tons pastéis e o título "The Last in Line". Naquele vinil estava não apenas a canção que iluminou um final de domingo qualquer, mas também, e principalmente, minha definitiva introdução aos prazeres do rock and roll.
Vinte anos depois, meu primeiro LP está girando no toca-discos. Orgulhoso, ele tenta disfarçar o efeito do tempo e deixa a agulha deslizar tranqüila, sem reproduzir qualquer chiado, talvez na esperança de que seja tocado com mais freqüência em minhas sessões nostálgicas.

Escrito por Mr Eddy às 03h01
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